Sua mãe, que lhe guardara nas costas, um dia também esteve assim, aos três anos de idade, naquela mesma casa, naquela mesma sala, nas costas de sua avó. Ele estava ali e como criança estava em qualquer tempo, em qualquer lugar porque todas as crianças são iguais e são iguais todos os meninos e todas as meninas. Podia viajar pelo tempo, atravessar oceanos e estar em Sartirana de Lomellina, em Rovigo, Pavia ou Colle Umberto. Podia estar na Saxônia, em Veneza ou no Sul da Austria, podia estar em qualquer lugar do mediterrâneo ou no vale do Rio do Pó ou do Arno, na Padânia ou em uma aldeia aos pés dos Alpes. Podia ouvir o barulho do mar Adriático e imaginar suas águas à noite e todos os monstros que emergem dos medos atávicos ou dos deuses que flutuam sobre as ondas emprestando sua força aos homens cansados. Podia ser sua avó nas costas de sua bisavó quando ela nem imaginava onde haveria de estar tanto tempo depois. Ele era agora uma criança, sua mãe também uma criança, suas avós crianças, seus avôs crianças, seus bisavôs crianças e nenhum deles imaginaria em que lugar da Terra poderiam estar a não ser entre as costas da mãe e o encosto da cadeira durante centenas e centenas de anos. Certamente não conseguia entender o universo do lado de fora de sua casa e de sua família, assim como nenhuma criança conseguiria , mas podia lembrar-se de seu pequeno território, dos olhos rasgados e do rosto redondo de sua mãe lombarda. Podia lembrar-se da sua avó, como um vulto que passou por ele quando criança, deixando-lhe seu semblante suave, olhando-o com seu amor azul.
Haveria de ir até a esquina e depois, com o tempo, crescendo, ir mais além, ir até a escola. E quem eram aquelas pessoas que na escola falavam e o obrigavam a decorar os nomes? Sabia apenas que seus avôs vieram de um lugar chamado Itália e que fora, outrora, Império Austro- húngaro. Somente dos seus ouvia sobre isso e apenas isso. Ouvira deles frases que não estavam nos livros da escola, palavras que não escutava na escola. Somente dos da sua casa ouvia isso. Apenas sentia-se estranho e quase que o levaram a sentir os seus familiares estranhos também. Quando seus antepassados se encontravam no meio da vida, viram-se perdidos em uma floresta escura, e perceberam que haviam deixado de seguir o caminho certo. Eles se arrependeram tardiamente dos seus pecados e como algo inexorável, deixaram-se levar pelo resto do destino aguardando a oportunidade para entrar em algum purgatório, sempre com a esperança de que algo inesperado os pusessem às portas do paraíso. Poderiam sentir-se como barqueiros que colocam os filhos do outro lado do rio e sem saltar da barca deixam-se levar na correnteza até se perderem por entre a neblina densa, sem dizer nada aos herdeiros, sem contar-lhes nada.
Talvez ele se tornasse um gaibéu universal a transitar de continente a continente como se fosse de uma fazenda para outra. Poderia se sentir perdido como sua mãe se sentiu perdida quando seu pai se foi de vez. Eles tinham a mesma referência, quase que a mesma história e ele não mais. Por isso teria que cultivar o pouco que sobrou nas suas lembranças, Teria que guardar desesperadamente os velhos documentos familiares, resistir ao esquecimento, interpretar o que seus antepassados disseram em silêncio. Andar por eles, fazer o caminho inverso da barca e alcançar a margem do rio de onde eles partiram um dia, caminhar em direção aos outros rios e aos outros barqueiros mais antigos. Que direção se deve tomar quando se quer caminhar e seguir adiante? O que é futuro e passado, o que é passado e futuro?Ainda protegido do frio pelo cobertor e entre as costas da sua mãe e o encosto da cadeira, podia ouvir o som do instrumento do qual seu pai fazia soar notas de um hino de louvor. O paraíso parecia estar ainda lá na frente e seus avôs e bisavôs haviam deixado os seus parentes e suas casas, os seus desesperos e desconsolos, as suas pobrezas e desesperanças nas terras do lado de lá, onde o bisão é castanho, onde o mar quebra com calma na praia, onde o sol brilha sem afetar os de olhos e pele claros. Deixaram o lugar quando ainda eram jovens e caminharam até aqui, na direção de um paraíso que lhes convenceram estar mais à frente, como se na Terra não existisse outro lugar assim. Seu pai que havia nascido do lado de cá também haveria de continuar a incansável procura que havia herdado. A música era uma entre tantas outras formas de estabelecer contato com o paraíso ou, pelo menos, de ser aproximar, acatar e agradar Aquele que escolhia os convidados e guardava a porta de entrada. E hoje, mais do que em outro momento, parecia-lhe que o pai havia encontrado o caminho e ao mesmo tempo dado a resposta histórica aos que desiludiram os seus antepassados do lado de lá.
Faltou-lhe pouco para decidir continuar essa aventura de seguir, seguir sem parar. Faltou-lhe pouco para acompanhar os que decidiram continuar caminhando,agora em direção ao norte do hemisfério, ao norte da América, onde se pregava aos quatro cantos que se confirmara a existência do paraíso. Custou-lhe entender que mesmo sem saberem, foram seus antepassados mais longínquos quem estiveram no paraíso. Mas já não podia contar a nenhum deles que o paraíso poderia ter ficado lá atrás, de onde vieram, onde viveram os primeiros dos seus, os primeiros dos nossos. Não poderia dizer porque ninguém diz a quem já se foi, pois somente os que virão é que pode nos ouvir. A quem dizer agora que o paraíso vem antes, o paraíso está lá para trás, um pouco antes de Eva dar a maçã a Adão?
O certo é que ainda que não se pudesse chegar lá, ao menos poderia chegar mais perto estar mais próximo Dele e de si mesmo na medida em que nos compreendemos e a nossa própria história. O Paraíso, o Éden não haveria de estar no futuro, mas sim no início, como fôra transmitido pelos barqueiros a cada um de nós, estando ainda hoje dentro de nós, escondido, embotado. É no passado que ele sentiu que devia insistir e por onde devia viajar.

Quando enxergou o mar pela primeira vez, seus olhos não passavam do quebra ondas. Suas descobertas estavam na praia, seu olhar naquele pequeno espaço onde a onda finda e morre quase que imperceptível. Onde a água que volta para o mar despede-se da sobra que deseja ficar em terra. Tantas cores das cascalhas das ostras e outros crustáceos, tantos brilhos dos cristais de areia que refletem a luz do sol. Imenso esse mundo que seus olhos rebuscavam na areia da praia quando nem três anos de vida tinha ainda. Nunca imaginara um mar que não fosse esse, calmo, tranqüilo, de se ver o fundo, minúsculos peixinhos e a areia. Uma orla de pequenas praias, pequenos cais, onde as marolas tocavam nas pedras escuras chamando sua atenção, de maneira discreta, para guardar essas lembranças em sua vida.

Ao retornar dos passeios ao mar em direção a casa de seus pais, sentia que se distanciava de alguma coisa. Ao mesmo tempo, ao chegar a casa, tinha a sensação de estar e não estar em um lugar. Havia algo inexplicável, uma sensação estrangeira. Poderia morar por cem anos naquela casa que ainda assim sentir-se-ia, como um estrangeiro, um peregrino, com o olhos sempre voltados para o horizonte, como um espírito de eterno viajante, mas com receio de se aprofundar pelo interior do continente e se distanciar cada vez mais do mar, o seu caminho de volta, o seu caminho de fuga, a possibilidade de se resgatar.
Ainda menino de seis ou sete anos, nos primeiros meses de escola, via pessoas que pareciam donas daquele lugar. Ouvira sobre aquilo de quem se dizia professor. Aquelas pessoas tinham seus sobrenomes nos livros da escola, nos cabeçalhos e nas historietas das cartilhas de alfabetização, nas autorias dos hinos incompreensíveis que insistiam a lhe ensinar. Sua mente criança podia ser lavada e preenchida na escola com o que queriam que ele fosse. Mas por obra das conversas que sua avó e seu avô tiveram com sua mãe em noites de lampião e velas, ruas barrentas, trabalho exaustivo, cansaço milenar, essas informações prosseguiam nele. Sua mãe colocou-o em suas costas e contou-lhe tudo também. Nele haveria de estar para sempre, ainda que adormecido, algo que é transmitido de um para o outro no silêncio da existência, pelo simples ato de fecundar. Talvez, por isso, muitos sofrem, carregando sem saber, uma eterna insatisfação interior passando a vida atrás de terras prometidas. Se sua avó estivesse ainda sentada na calçada da rua olhando para a igreja com o campanário separado da nave, estaria plena em seu último suspiro. Teria cumprido sua missão. Mas ao embarcar menina, guiada pelos pais, no porto de Triestre selou definitivamente sua intranqüilidade, tornou-se uma eterna estrangeira. Se tivesse emigrado para outras terras da Europa poderia se locomover e andar rompendo fronteiras, mas ao cruzar o Atlântico degredou-se inocentemente. Foi colocada do outro lado da barreira de água salgada, intransponível para os que vieram para a miséria econômica, intransponível para os que vieram continuar com as mentes lavadas por ordem dos confessionários, intransponível para os que vieram trocar mais uma vez de rei, para os que foram designados a caminhar para o limem da civilização ocidental, para a zona de misturação. Foi assim que ela caminhou para longe de sua própria história, de seu próprio sobrenome. Para ser esquecida e esquecer dos seus. Talvez o muro de pedra do vizinho que ainda hoje se mantém em pé fosse uma resistência. Talvez as ferramentas de carpintaria e alvenaria empilhadas no barracão fossem a esperança. Assim como o pé de louro, a romã, o figo e a uva no quintal de muro branco fossem o mapa de onde fora enterrada a identidade, fossem o balão mágico que em uma dessas noites alçaria vôo, levando consigo a casa, o terreno e suas pessoas colocando-os do outro lado do mar, exatamente no lugar que guardaram em suas lembranças, sem explicar nada, sem pedir nada, sem dever nada a ninguém, nem mesmo aos que ficaram por lá e que por essa fatalidade tornaram-se os guardiães.
A terra e o lugar caminham juntos com as pessoas, as cores do mato e das folhas, o céu, o cheiro da terra molhada pela chuva, o frio, a luz do sol, as marolas que batem nas pequenas enseadas, o rio silencioso ou a corredeira que se faz de esposa alegre do silêncio da noite; são o lugar. Os olhos e a tez, o nariz, a cor e a espessura dos cabelos, os cantos, as modinhas e as histórias que marcam a vida das pessoas são o lugar. As cores das roupas, o cheiro da comida, os relevos são o lugar. As frutas, as flores do campo, as histórias de batalhas, as pedras empilhadas secularmente, a marca na soleira do portal, os monumentos seculares, milenares, a rua de pedra, as casas de madeira envelhecida, a borra do vinho são o lugar. O lugar que deu a cor e o cheiro ao barro do qual fomos feitos e moldaram nossos utensílios e as paredes de nossas casas, que estão ainda dentro de nós e que passamos aos nossos descendentes.
A casa em cujo catre vem, durante séculos, guardando centenas de juras de amor, a cada casal que a ocupa, vive, envelhece, vai e a deixa para uma nova família que se faz de seus herdeiros. Quantos gemidos não estão guardados ali, quantos desejos, quantos ais ecoaram de bocas bonitas por todos estes séculos. Na casa deste lado de cá onde sua mãe costurava à noite, a figueira também não tinha história, a parreira também não tinha história, o pé de louro como as outras plantas não tinham mais que quarenta anos. O que poderia se ouvir do pé de louro? O que se poderia ter dele, quem fora coroado com suas ramas? Logo haveria de ser cortado e de resto mais nada haveria sobre este solo. Para os eternos viajantes a vida estava em derrubar e reconstruir, derrubar e reconstruir. Tudo se tornava velho em pouco tempo, menos tempo que uma existência. Envelheciam o que não era velho, para a eterna intranqüilidade desses espíritos que se puseram a viajar. Viviam agora para sonhar com um novo paraíso, substituindo as lembranças que lhes foram tiradas ao terem suas mentes lavadas. Até os gemidos e os desejos presentes na história do catre pareciam antigos, velhos, sem sentido, embora os novos inquilinos fossem apenas a segunda geração dos do lado de cá.
Assim, essa vida de construir do nada não havia lá do outro lado do mar. Seus antepassados haviam levantado a casa por centenas de anos de trabalho. O que veio depois ampliou os cômodos, o piso, o que veio depois melhorou o quintal, fez um pequeno pomar. O outro que o substituiu melhorou as paredes, deu a elas uma cor, pintou-as. Seu avô melhorou as portas, reformou o telhado, comprou outros móveis. Trocou um ou outro vidro translúcido e liso da janela que dava ao pomar nos fundos. Repintou a barra de cor azul celeste deixando-a um pouco diluída ao fundo branco que vez ou outra transferia para a parede a mesma sensação das nuvens que ficam entre nossos olhos e o azul infinito quando admiramos o céu. Foi ainda seu avô que recolocou ladrilhos de mármore de face marrom indo até o amarelo clarinho que dividia o azul da barra de baixo com a outra metade toda branca da parte de cima da parede. Em suas lembranças a parede lhe parecia imensa tendo mais de quatro metros de pé direito. Seu pai começara a fazer a pia da cozinha, mas desistiu um pouco antes de embarcar no porto de Triestre.
Não se lembra de ter ouvido falar de bem e de mal. Quando criança sentada na calçada de onde via a torre separada da nave da igreja ouvira falar de Dionísio e Apolo. Era a Dionísio que se referiam quando havia exagero em alguma coisa, quando havia alteração em um comportamento. A tranqüilidade e as coisas certas e bem feitas eram atribuídas ao espirito de Apolo. Entre quadros de santos católicos romanos e deuses pagãos emoldurados com requinte pelas mãos dos artesãos que trabalhavam com o gesso, havia também um ou outro prato de louça enfeitando as paredes. Neles via-se cenas de Diana na floresta pintadas em azul celeste ou marrom. No outro cômodo, o quarto com espelhos emoldurados com gesso dava a impressão de ampliarem o ambiente. Uma ou outra janelinha redonda como escotilhas de embarcação trazia claridade ao ambiente. As paredes pintadas de verde marinho e marrom clarinho quase palha, combinavam com as lajotas do assoalho marcadas por motivos greco-romanos. Na camiseira uma pequena escultura de Diana e um busto de Apolo, E o Adriático suave, empurrava com sua brisa a cortina branca e fazia parecer que quarto era uma embarcação à deriva na história, à deriva no mar. O sabor do sal da água do mar vinha à língua enquanto se aspirava um ar com cheiro milenar, carregado da mistura de todas as construções, de todos os gostos, parecendo exalar até mesmo pensamentos.
A fome e o frio da vila do lado de cá empapando as idéias com um sentido de inexistência, de negação. Uma repetição constante de situações em que o dia a dia tornara-se extremamente desolador. Nem mesmo ao mar, que a todos os seus antepassados havia servido, devotava seus sonhos de melhores dias, de mesa farta, de alegria, de poesia. As vezes é preciso mudar ainda que para nada. É preciso saber o que se deixou e em que lugar ou situação se encontrava, onde que se estava situado. É preciso querer o cheiro, a imagem, o azul, a brisa, a cor, o sol e o sal, a terra, as roupas e as velhas paredes. É preciso querer a própria imagem, a dos da mesma etnia, os olhos, a cara, o jeito, os costumes, as rezas, os quadros, as cantigas, os entendimentos sem palavras, os santos, os olhos, os pecados, os homens e as mulheres, as meninas e os meninos.
Era preciso querer ter os filhos, deixá-los nascer e sentir-se seguro de que todos pertencessem à mesma família. Que com menos ou com mais que o outro ao final todos sobreviveriam, todos seriam filhos, ainda que lhes faltassem rimo, ainda que lhes faltassem pais. Então quem ou o quê haveria de impingir tal desunião, tal insegurança, tal solidão, de maneiras que já não se sentiam parte de tudo aquilo, célula daquela família e que assim partiram? Ali a olhar o campanário separado do prédio da nave, sem saber de mais nada. Apenas seguiria o destino que seus país haveriam de dar à sua vida e a todos os outros de sua descendência.
Mas por quê? O que pensou naquele momento de decisão? O que os levou a embarcar? O que conversaram na noite à beira do fogão que fervia o alimento e esquentava os quartos da casa? O que acordaram entre eles, o que reclamaram, o que sentiram de tão juntos para fazerem amor depois da decisão? Qual a maior frustração? O que lhes fizeram os outros, o governo, a polícia, os bem sucedidos, as juntas de governo, os jornais, os comunicados, o rei, os bons súditos, o padre e a Igreja? O que lhe fizeram? Qual a tristeza que invadiu a alma e calou sua voz? Quem não lhes deu alento ou a outra opção?
Talvez dentre todas as demonstrações de incapacidade, de derrota e impossibilidade, talvez dentre todos os sentimentos de frustração, de desconsolo, de desunião, de desamor, de desprezo, , de miséria social, o ato de negar-se e ao outro indo, de negar-se e ao outro embarcando, tenha sido a forra, a cusparada, a revolta e o desprezo ao desprezo, desamor fingido ao desamor escancarado, o desdém fingido ao desdém planejado. Desdém que sempre haveriam de se manifestar a qualquer lugar ou pessoa que ignorassem suas existências.
Todas as idéias, todas as conversas tornaram-se objeto para construir o desejo de partida. A pátria, o Estado, seu valores e ícones foram soterrados no porão da alma rasurada e gasta pelo abandono e por tanta traição. Até o sol que dava cor aos cabelos, que não enrugava a testa, que deixava a vida dourada fora derrotado pelo frio da falta de agasalhos, da falta de alimentos para aquecer o estômago. Um sol maior estaria em outro porto. Um sol que dispensava agasalhos, que nunca mais os faria sentir tanto frio.
Sentada ali, de enxergava o campanário da igreja que não podia freqüentar, a menina apenas corria os olhos para todos os horizontes. Desviava-os da panorâmica apenas para observar um ou outro que passava introspectivo que, como seus pais, pareciam estar convencendo a própria alma a partir. Naquelas noites frias seus pais resmungavam sobre a vida. Iam assim deixando ao destino a responsabilidade de abrir a porta do paraíso que os donos daquele lugar diziam não existir mais ali. Os olhos do pai perdiam-se nas chamas que consumiam os gravetos no fogão. Lembrava-se, mesmo com sua idade avançada e do lado de cá do oceano, do olhar de seu pai e as pequenas labaredas refletidas na menina de seus olhos. Os olhos esverdeados do pai e a frase em que ele misturava decisão e amargura e que lhe ficara na mente até o último suspiro, longe muito longe de lá. “Temos que partir!”. Ela sabia que não fora para isso que viera ao mundo num canto da Terra onde a luz da lua se enfiara por debaixo da sua pele, a cor do mar entrara seus olhos e o dourado do sol habitara em seus cabelos.
Já do outro lado do oceano, os pensamentos, no entanto, não são mais verbalizados, são sim embotados, num ruminar de sensações abstratas que levam a mente a uma viagem de revisão constante da vida. Porém, nunca mais se resmungou ou se falou sobre os equívocos ou sobre a ingenuidade da juventude ou dos erros de convencimento que os levaram a partir. Nunca se emitiu nenhuma palavra sobre se deixar convencer pelos discursos oficiais, pela conversa do padre na missa ou pela ingenuidade de oferecer informações no confessionário. Nunca houve uma manifestação verbal de arrependimento. Apenas os olhares, a profundeza dos olhares, o tempo dispensado a olhar as chamas que subiam da lenha do fogão, a se envolver com elas no mais profundo e atávico momento de um homem, denunciavam os sentimentos do pai de sua avó, seu bisavô.
É possível lembrar-se hoje de tudo isso e compreender aquele homem. É possível sentir tudo isso ao buscar na memória tantos momentos mágicos em que todos estavam em silêncio, em volta à mesa grande da cozinha. É possível sentir ainda hoje a presença de um turíbulo ancestral invisível, que acompanha naturalmente as descendências. Turíbulo que tem força para ser alçado do lugar mais longínquo da Terra. E nesse momento uma névoa de fumaça de incenso se faz presente nos quatro cantos daquele aposento, juntando avós, pais e netos em uma mesma mesa, um colado ao outro, todos a refletir o fogo, como se isso já houvesse acontecido outras vezes e se repetisse assim há milhares de anos, em algum momento imprevisível, em uma caverna ou uma habitação qualquer do agora inalcançavel velho continente. Onde estaria agora o paraíso, a salvação? Que deus era esse que haviam criado, mudado, embora continuasse falado nas rezas, pela boca do mesmo padre, da mesma igreja? Onde estaria entre os seus o que cometera tal pecado para justificar esse degredo e continuar perseguindo do lado de cá do oceano?
Voltava agora, do lado de cá, ao limem, a fronteira entre a civilização e a barbárie da qual havia se distanciado há muito tempo, do lado de lá. Era como se estivesse se rebatizando, como se negasse a idéia de desenvolvimento, de passado e futuro, de melhor e pior. Agora a avó que já havia sido uma menina a olhar a igreja do campanário separado, voltava-se agora para seus filhos, netos e bisnetos. Cumprimentava seus vizinhos africanos, asiáticos, dividia com eles o seu olhar e a sua história.
A cada geração torna-se maior a distância entre as sensações e o que ela podia transmitir, maior a distancia entre seu barco e o dos que estavam chegando ao mundo agora. É como se a cada geração os indivíduos seguissem cada vez mais para o interior do continente, como se cada vez mais virassem as costas para o mar tornando-se incapazes de desvendarem os seus segredos, tornando-se insensíveis aos mistérios dos olhares que vagueiam pelos horizontes. Quantos dos seus haveriam de se perder para sempre? Quantos dos seus já haviam sido levados água abaixo, sedimentados em alguma foz, misturados a tantos outros que, embora vindos cada qual dos lugares mais distantes, mais estranhos da Terra, tiveram a mesma história, a mesma sorte, o mesmo destino.
Quando os pais da menina em desespero e desesperança resolveram embarcar, deixaram suas vidas nas mãos do acaso. Talvez por não entenderem muito bem o significado da partida que lhes estava sendo cultivado e incutido dia a dia nas propagandas oficiais. No entanto eles atenderam a um chamamento inexplicável, incompreensível a que todos trabalharam sem saber para que tal destino, se cumprisse, pois que era assim que Ele queria e assim que seria, assim que deveria ser, assim que será.
Valionel Tomaz Pigatti (Léo Tomaz)

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