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terça-feira, 7 de julho de 2009

O TEMPO, DE MANEIRA SUAVE, FARA COM QUE UM DE NÓS DOIS DEIXE DE EXISTIR.

                   (PIGATTI, V, T., 2009)
            Terminei o curso superior de jornalismo no final da década de setenta do século XX. Desde então voltei minha atenção para questões que envolvessem a organização do país em que eu e minha família vivemos. Junto a isso, sempre me acompanhou a preocupação de descortinar as verdades e as mentiras que compõem  a identidade histórica, tanto política como cultural, deste país e também de meus antepassados. A identidade de meus antepassados esteve totalmente camuflada em mim pela imposição de valores da identidade nacional brasileira promovida pelo poder institucional do governo federal ao qual nos vimos submetidos desde que chegamos ao Brasil em 1889. 
                    Mesmo reconhecendo as dificuldades dos da minha procedência  e a precariedade econômica em que meus antepassados se viram submetidos ao emigrarem para terras de colonização portuguesa na América do Sul, fiz tudo que pude para descobrir qual era meu papel e revelar a minha identidade como indivíduo, cidadão e mesmo as minhas heranças culturais junto com as minhas manifestações artísticas de pouca ou nenhuma projeção. Sobre a herança cultural, tenho que reconhecer que meu pai, João Pigatti, legou-me algumas influências no campo das manifestações artísticas.  Ele deixou-me dois LPs de 78 rpm cada onde, em um deles, haviam duas canções, uma em cada lado.  No lado A estava a canção de título "São Paulo Avante" e, no lado B, "São Paulo Terra Querida em Flor". Meu pai havia se inspirado nas festividades do IV Centenário de São Paulo, que ocorreu no ano de 1954, quando ainda corria o espírito da Terra Paulista nos discursos, nas canções, nas poesias e nas inspirações dos povos que viviam nesta Unidade da Federação de Estados Brasileiros.  
                     Durante boa parte da minha vida, que teve inicio em 1952,  estudei, participei, discuti, enfrentei obstáculos pessoais e profissionais, constituí família e me diverti como todos os outros cidadãos. Agora, já no século XXI, nesse momento histórico,  mesmo residindo em um país subdesenvolvido, tive o privilégio de conviver com a globalização dos meios de comunicação que vai desfazendo mitos de nacionalidade e destruindo os instrumentos arcaicos de controle provinciano das informações. A globalização, através da comunicação digital,  vai eliminando as fronteiras e os monopólios da miséria  interna de países subdesenvolvidos. A globalização dos meios de comunicação através da internet vai propiciando oportunidades para as populações se libertarem do monopólio imposto pelas quadrilhas patrimonialistas institucionalizadas alojadas, há centenas de anos, em cargos de funcionários públicos e de representação política. A globalização através da internet vai expondo os costumes que se tornaram tradicionais como, por exemplo,  os dogmas ufanistas em relação a composição étnica e cultural da nacionalidade brasileira, o nacionalismo que usurpa aspectos da diversidade cultural dos povos espalhados pelo território e o poder central que tende ao despotismo omitindo o significado descentralizador do pacto federativo.  Diante disso, pode-se observar manifestações de desconfianças e desprezo em relação ao Status Quo. Embora diluídas em diversos movimentos espontâneos de natureza política e cultural, essas manifestações de desprezo e desconfiança são limitadas e desprezadas. Os questionamentos dessa natureza são proibidos na produção acadêmica  controlada, em sua grande maioria, por orientadores acadêmicos de origem marxista. Boa parte da produção de trabalhos acadêmicos registra o desejo da construção de uma Pátria Brasileira assentada na falsa ideia de civilização própria, local,  que se faz representada por um arcabouço cultural unidimensional, habitada por um povo de uma única característica étnica e estética.                
           Neste inicio do ano de 2016, é possível questionar  a importância ou não de se manter a federação de estados brasileiros e de se escancarar os verdadeiros interesses que estão por detrás desse pacto administrativo que resiste ao esfacelamento desde a época do Brasil colônia. Também passou a ser de conhecimento de todos, através das informações livres propiciadas pela internet, que na federação existem toda sorte de indivíduos dos mais diferentes matizes e procedência étnica. Assim também o clima deixou de ser unicamente tropical para encampar manifestações da natureza que até o final do século passado  eram ignoradas
                   Um dos temas proibidos, até pouco tempo, pela construtores do ideário da pátria marxista, é o que se refere as festividades ou mesmo registro históricos e educacionais de movimentos insurretos armado como os ocorridos no Sul e Sudeste, entre eles a Guerra dos Paulistas que se deu em 1932. Embora resista ao tempo, as lembranças desse evento histórico  ainda são jogadas no porão da história. Ela, a Guerra dos Paulistas de 1932, é um dos pilares onde se debruça a identidade local, estadual, que difere do restante dos Estados que compõem o pacto federativo. Isso não é diferente em outros estados da federação que também têm sua historia desprezada. É nítida a ditadura federal que se sustenta no desejo das forças políticas locais  de  um dia controlar politica e economicamente a riqueza destinada ao Governo Central  pela população dos estados federados.  
                Abrir o tema sobre a Guerra de 1932, respeitar os rapazes que morreram no conflito, recuperar as histórias, versar, musicar a respeito, discutir em público, produzir cinema, teatro e outras formas de manifestação artística é, hoje,  ato de reflexão e, ao mesmo tempo, de  libertação dos controles exercidos pela manutenção dos interesses econômicos do estado central e do ideário marxista. As manifestações sobre esse tema questiona, entre outras coisas,  o controle exercido na economia e no mercado federado pelas grandes empresas de comunicação e pelas empresas nacionais e internacionais que dependem de negociações com membros do Governo Central. Sob o ponto de vista ético e moral, abrir o tema  é  reverenciar o empenho, o sacrifício físico e material de tantos moços e moças, homens, mulheres e crianças envolvidos nessa guerra que se deu em 1932. Como consequência, ao abrir esse tema, certamente despontará, ainda que subjetivamente, um rompimento com o monopólio temático cultural que as grandes mídias e as Universidades impõem para a continuidade  de projetos ideológicos e dos benefícios advindos  do controle do grande mercado de consumo  possibilitado pelo  pacto federativo.
            Todavia, mais do que isso, abrir o tema  para discussão é como construir uma ferramenta que, naturalmente,  forçará a reorganização do processo econômico, político e administrativo ao qual estamos submetidos. Portanto, essa preocupação em relação a Guerra dos Paulistas de 1932 serve também às populações de outros Estados da Federação cujas histórias se veem soterradas a exemplo do que ocorre com os eventos relacionados  ao território paulista. Dentro desse prisma é bom registrar que o impedimento  de se tratar das questões de identidade cultural interna dos Estados Federados, é resultado cultural dos interesses dos primeiros colonizadores da matriz portuguesa e da Igreja Católica Romana, reforçado, a partir do inicio do século XX, pelo  ideário marxista. 
        No decorrer do processo colonizador outras ondas emigratórias vieram da Europa em direção ao continente latino americano, mais especificamente para o Brasil. Por terem sido pioneiros, os colonizadores portugueses e católicos apostólicos romanos acharam-se  proprietários da identidade nacional brasileira. Por uma questão de mea culpa em relação à escravidão africana e do genocídio cometido com os silvícolas, os pioneiros se viram obrigados a minimizar essas tragédias compensando-as com a admissão da presença do africano e do índio na composição ética e cultural. No entanto, seguiram desprezando a contribuição de outros povos que vieram posteriormente para se instalarem nos diversos estados que fazem parte do pacto federativo. 
     Esse modelo sociológico e histórico discriminatório se impõem ainda hoje, no século XXI,  através do sistema de educação e de promoção de mercadoria cultural. É o modelo de controle baseado no conceito marxista de Unidade Nacional que suprime e combate manifestações de identidade cultural para populações de diversos países da Europa e Oriente que imigraram para o Brasil a partir do final do século XIX, inicio do século XX. 
       Os paulistas foram derrotados em 1932 por interesses econômicos e acordos ideológicos internacionais que envolveram oligarquias internas, a Igreja Católica Romana e lideres de partidos de origem marxista estabelecidos no Brasil. Essas forças políticas optaram em apoiar a proposta de centralização do controle político e econômico através de um Governo Central e em detrimento dos interesses do pacto federativo. Com a derrota em 1932 os referenciais do Estado Paulista passaram a ser desprezados e omitidos sempre com o argumento de ceifar iniciativas de separatismo e com a justificativa econômica de priorizar causas nacionais de outros estados que ainda se mantinham materialmente e economicamente atrasados. O combate e o desprezo ao movimento paulista era justificado politicamente por atribuírem intenções separatistas aos imigrantes de origem italiana  que, em boa parte, estabeleceram-se nos Estados do sudeste e do sul.   Os estados cativados pelo Governo Central venceram a Guerra e  desprezaram  às experiências e manifestações culturais do Estado de São Paulo ou mesmo  em relação  a qualquer manifestação que pudesse recuperar a auto estima de sua população. Já nas décadas de setenta e oitenta, dada a grande atividade de partidos da esquerda marxista que se organizavam mais uma vez para alcançar o poder Central, a discriminação em relação ao Estado de São Paulo, cuja população era tida como conservadora, alcançou seu ponto mais alto.  Nessa época era, praticamente,  impossível ou  até vexatório  o fato de se afirmar em público a naturalidade paulista. Ao final da década de oitenta e no transcorrer da de noventa ficou ainda mais explicita a pressão política e cultural dos partidos políticos de esquerda para que não se tornassem públicas manifestações culturais que contivessem elementos dessa identidade local.
             Para que não pareça opinião isolada,  xenófoba, local  ou resultado de visão de mundo particular e provinciana, alguns fatos que aconteceram entre 1984 e 1986, quando a Secretaria de Cultura do Município de São Paulo estava sob a gestão do escritor, ator, teatrólogo e membro do Partido Comunista Brasileiro, Gianfrancesco Sigfrido Benedetto Martinenghi de Guarnieri, podem comprovar essas considerações sobre a orientação política dos marxistas de manifestar indiferença paras as manifestações culturais da  população paulista.  Antes porém, é preciso entender que, aqui no terceiro mundo, tratar do passado é algo que causa ojeriza. Isto porque a herança histórica miserável que marca os países latinos americanos do terceiro mundo e o atraso econômico e social que ainda se faz presente no dia a dia, impõe um desejo desesperado pelo amanhã. Ao lembrar coisas do passado identificamos as mesmas famílias, as mesmas correntes ideológicas e culturais,  grupos e indivíduos que estiveram e ainda estão em cena nos dias de hoje e que ainda são os responsáveis pela manutenção do atraso e pela estagnação do desenvolvimento. 
           Revirar o passado, tanto em relação ao Brasil,  como também em relação aos países que motivaram indivíduos e famílias  a emigrarem em direção a América do Sul, é ato de coragem. Cavoucar nesse passado histórico  é encontrar as raízes do atraso e da pobreza que continuam alimentando a estrutura política e  cultural do lugar para onde emigramos e  passamos a habitar.   Por esse e outros motivos semelhantes é que as coisas do passado nesses países subdesenvolvidos, como o Brasil, parecem que são sempre as mesmas e ainda que tenham acontecido  a cem ou duzentos anos, têm-se a impressão de que ocorreram há menos de 24 horas atrás. 
                 Essa rejeição ao passado é resultado do bombardeamento ideológico dos grupos políticos organizados e dos intelectuais pioneiros. Eles se fundem e se utilizam da mesma retórica.  A manutenção da miséria, a corrupção, a manutenção da pobreza são instrumentos de perpetuação no poder.  Essa manutenção alimenta o discurso  que se baseia na perceptiva do amanhã, de esperança e do futuro. Essa retórica repetitiva, mas ainda de grande sucesso, seduz eleitoralmente boa parte da população que eles mesmos sodomizam e possibilita a manutenção da fórmula cartorial de poder público.  A retórica sobre o amanhã e o futuro é artifício utilizado pelos pioneiros para se eximirem  dos equívocos e dos erros que cometeram no transcorrer da História. Ao escamotearem a construção  de uma nova versão da linha do tempo histórica,  evitam que a sociedade  tome conhecimento dos problemas causados pelo atraso intelectual, econômico e cultural imposto por um pequeno grupo de famílias tradicionais que, dessa forma, mantêm-se em seus privilégios.  Assim, através do sistema de educação, da produção política e  cultural,  transferem com sutileza  a todos os habitantes, mesmos os  europeus que imigraram para cá a partir do século XX,  os erros cometidos por eles desde o inicio da colonização, em 1500. Um exemplo do escamoteamento de responsabilidades se dá na  generalização da responsabilidade pela escravidão africana da qual o Brasil foi o último país a se desfazer. Os livros e as retóricas político partidárias  atribuem as responsabilidade aos brancos e não aos brancos portugueses e aos brancos da Igreja Católica Apostólica  Romana.   
             Ainda que, de uma maneira geral,  o passado seja estigmatizado como uma coisa triste, feia e dolorida, o exercício de rebuscá-lo é imprescindível, pois o passado norteia, propicia consciência e consistência cultural milenar. Ao se libertar da retórica dominante tradicional colonizadora luso-católica do novo continente  e, no Brasil, de seu controle federativo, redescobre-se o verdadeiro percurso histórico e a identidade milenar. Quando isso ocorre o  passado, o presente e o futuro transformam-se em uma coisa só.
                A discriminação intencional e controladora que se estabeleceu em relação aos paulistas (também por Santa Catarina, Paraná, Espirito Santo entre outros) foi alimentada pelo conjunto de valores intelectuais e políticos tradicionais dos pioneiros transladados e adaptados na América do Sul desde o inicio no século XVI. A discriminação se estabeleceu como instrumento de proteção  dos pioneiros por ocasião da invasão de Holandeses e Franceses e prosseguiu como instrumento de afirmação cultural até muito tempo depois, por ocasião da  imigração italiana e de outros povos da Europa que não portugueses. Portanto, a discriminação foi se solidificando e se aperfeiçoando como instrumento de controle  ao longo da história, sendo utilizada  no inicio do Modernismo por Getúlio Vargas que  representou um grupo de militares e civis e se estabeleceu pelas armas no comando  do poder Central, em 1930. 
             A discriminação em relação aos italianos se consolidou de vez como instrumento institucional  a partir de 1932 quando os paulistas perderam a Guerra Democrática que, a bem da verdade,  não se tratava de questão local já que envolvera grupos de todos os outros Estados da Federação. Esse instrumento político de discriminar nacionalidades foi utilizado por Getúlio Vargas também em relação a alemães, italianos e japoneses por ocasião da Segunda Grande Guerra. 
         Os paulistas perderam a Guerra e se renderam a política ideológica, intelectual e econômica comandada pela junção de oligarquias tradicionais de outros estados da federação representadas em Getúlio Vargas. Essas oligarquias obtiveram, naquele evento militar, o apoio estratégico de grupos  internacionais de origem marxista e de suas organizações políticas partidárias que já estavam solidificadas no Brasil. É fato histórico que a influência marxista  no Brasil se consolida  a partir de 1922 com a fundação do Partido Comunista Brasileiro e com o movimento intelectual, artístico e político dos Modernistas marcado pela Semana de Arte Moderna que ocorreu naquele mesmo ano, 1922. 
                 Durante os anos que se seguiram após a derrota dos Paulistas no evento bélico de 1932, o casamento entre os vitoriosos das oligarquias tradicionais e dos partidos de origem marxista passou a ser marcado por brigas e reconciliações. Assim se deu a separação de corpos entre Getúlio Vargas  e os aficionados  pela Revolução Russa de 1917 que estiveram juntos no Golpe Militar de 1930 que impediu que Julio Prestes assumisse o cargo de Presidente da Republica para o qual fora eleito pelo voto popular. Os marxistas apoiaram e se serviram estrategicamente do ditador Getúlio Vargas enquanto ele esteve no governo Central e, depois de sua morte, enquanto continuou politicamente vivo. influenciando os partidos de origem trabalhistas.
                      Anos depois, já no inicio da década de oitenta,  Guarnieri, membro do Partido Comunista Brasileiro e seguidor do Movimento Modernista, estava acomodado neste casamento entre os tradicionais e os marxistas. Desde a fundação do Partido Comunista Brasileiro e a Semana de Arte Moderna de 1922 é que os marxistas tentam se instalar no poder Central do Brasil. Inicialmente sob a inspiração da Revolução Russa de 1917 e, no decorrer da história, sob o financiamento político e econômico da União Soviética.  
                   Guarniere, como tantos outros de seu tempo, tinha influência de personagens como Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, assim como também lhe servia de inspiração os lideres das organizações operárias, camponesas e estudantis das décadas de sessenta e setenta do século XX. Guarniere comungava com os intelectuais brasileiros ligados Internacional Socialista, o que, de uma maneira geral, foram os responsáveis pela formação política que deu perfil  à sua geração. A atuação  artística e intelectual de Gianfrancesco Guarnieri  deixaram sua marca na história cultural e política do eixo São Paulo - Rio de Janeiro.
                Não é com relação a elas, a essas marcas teatrais de Guarniere que está o foco deste ensaio. O  interesse deste texto está voltado  para o contexto indelével a que me presenciei,  me vi inserido, a que me vi submetido quando da atuação desse secretário municipal da cultura e teatrólogo italiano. Logo no inicio a inauguração de sua gestão como Secretário Municipal de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo foi marcada pela distribuição de cargos entre os membros do Partido Comunista Brasileiro e, consequentemente, pela dispensa de funcionários que já estavam atuantes na Secretaria de Cultura do Município. Entre os que foram substituídos por membros do Partido Comunista Brasileiro,  estavam os funcionários da área de restauração do patrimônio histórico, lotados no restauro da Casa da Marquesa no Pátio do Colégio, marco da Fundação de São Paulo de Piratininga. 
            Entre os dispensados estava Nelson Rodrigues Mouriz, artista plástico e restaurador.  Independentemente da origem política e da procedência do indivíduo que passou a ocupar o cargo, certamente o critério usado por Guarniere não foi técnico, científico ou profissional.  Certamente a troca de servidor público  não se pautou na necessidade de  recuperar e cuidar do  patrimônio cultural e urbanístico do Município de São Paulo. Também não se pode julgar ou condenar isoladamente  a atitude desse que se tornou secretário da cultura porque parece que desprezar a cultura da cidade de São paulo passou a ser costume político brasileiro a partir de 1932. Por outro lado  não se reconhecia como ainda não se reconhece a existência desse tipo de nepotismo tão comum e usual que se desenvolveu no Brasil desde o tempo da colonização luso/católica e que  classifico como "nepotismo político partidário".
                     Nelson Mouriz, por sinal, participara comigo, no final da década de setenta e inicio da década de oitenta, dos movimentos de recuperação da autoestima dos cidadãos que residiam e trabalhavam no município de São Paulo. Incluíam-se entre estes os que nasceram aqui e que eram filhos de representantes de povos originários de todos os cantos da Europa, de todos os cantos da África, enfim de todos os cantos do mundo, de todos os cantos do Brasil. Incluíamos também os índios nas discussões de recuperação da autoestima, porque esses foram massacrados. Os índios, que não foram reconhecidos pelos construtores da nacionalidade,  são, de fato, os únicos naturais deste continente. 
                 Ainda com Nelson Mouriz ocupando o cargo de restaurador, a Secretaria de Cultura sob a direção de Guarniere, havia dependurado em 1984, na Casa da Marquesa, no Pátio do Colégio, uma faixa oficial com letreiro piscante em que se lia ” Diretas Já”.  No entanto sabíamos do acordo político do movimento pelas Eleições Diretas para presidente da república. O acordo político entre os marxistas era de manter  o que já estava sem que houvessem mudanças significativas no contexto das representações parlamentares, já que muitos deles haviam sido eleitos pelo MDB. Os que estavam envolvidos no acordo das Diretas Já que culminou com   a eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney, em 1984, são os mesmos que estão no poder ou disputam por ele ainda agora em 2016.  Ocorre que percebemos com antecipação de quase 20 anos os interesses tradicionais que vinham desde de 1922 e que se movimentavam em 1984 com a nova possibilidade de alcançarem o poder Central. Em virtude dessa análise resolvemos intervir dentro da nossa miudez numérica e com o pouco que tínhamos à mão.                          
Nelson Mouriz e Valionel(Léo Tomaz)
na janela da Casa da Marquesa, em 1984
              Juntamo-nos em cinco, três rapazes e duas moças, subimos no segundo andar da Casa da Marquesa e acrescentamos um “Z” no Já do Diretas Já  e afixamos o desenho de uma cruz branca na faixa piscante de fundo negro. Então fizemos uma performance como se estivéssemos ao lado de um caixão funerário. Onde estava escrito Diretas Já passou a ler-se “DIRETAS JAZ”. Fotografamos e depois seguimos em direção à a Praça da Sé onde encontramos com outros amigos e em pleno comício pelas Diretas Já, debaixo de chuva torrencial, abrimos enorme faixa  de oito metros de comprimento por dois metros de largura onde se lia; “Pela Descentralização Política, Econômica e Cultural”. Fomos ignorados.
              Nossas discussões não interessava a ninguém, até mesmo porque o Muro de Berlim ainda nem havia caído. Nesse período, as estratégias eleitorais dos movimentos políticos, sob a influencia dos elementos da Igreja Católica , da esquerda bolchevique  e da herança da ditadura do Getúlio Vargas, consideravam os imigrantes brancos de origem ocidental, (como são os  italianos), inimigos do "povo", da revolução e da identidade brasileira.  Um exemplo da influencia desse tempo está na atitude do atual presidente da república, Luis Inácio, o qual, tão sintomaticamente, se referiu aos brancos de olhos azuis como os responsáveis pela crise econômica mundial que ocorreu  em 2009.
                  O segundo momento em que notei a discriminação em relação ao paulista ou, pelo menos, aos paulistanos com as minhas características biológicas e culturais foi lá na década de oitenta quando a Secretaria Municipal de Cultura estava sob a batuta do marxista italiano Guarniere. Naquela época recebi um covite oficial para participar do Fórum sobre Cultura que ocorreu no Centro Cultural São Paulo, complexo de salas e plenários situado próximo a Estação Vergueiro do Metrô. O referido Fórum  iniciou  seus trabalhos com a apresentação de protocolo de intenções por um professor da USP - Universidade de São Paulo. Esse mesmo professor presidia o encontro que tinha na mesa a presença de outros profissionais detentores de títulos acadêmicos e honorários. O tal fórum contava ainda com a plateia de atores culturais  sem os quais não haveria como dar veracidade ao evento. A platéia  formada por atores dos diversos movimentos culturais ignorados da cidade de São Paulo  se postava diante  de um palco italiano onde vários representantes acadêmicos estavam sentados e  ancoravam os cotovelos sobre uma longa mesa. Todos sentados, debruçados,  com caneta e papel nas mãos. 
             O docente, professor de História da Universidade de São paulo -USP-,  que estava no comando, em sua apresentação,  afirmou, entre outras coisas,  que: “A cidade de São Paulo é formada por pessoas oriundas do norte, do nordeste, de outros estados do Brasil e mesmo do interior do estado de São Paulo”. Depois da fala do representante oficial da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo neste Fórum, se apresentaram outros convidados especiais destacados da plateia os quais se disseram representantes de movimentos culturais atuantes na cidade de São Paulo. 
                   A primeira a falar foi uma moça afrodescendente que se apresentou como representante de uma organização cultural do bairro de Ermelino Matarazzo ou Itaim, ambos da populosa região Leste da idade de São Paulo. A jovem afrodescendente era parte da Comunidade de Base da Igreja Católica Apostólica Romana em um dos bairros supracitados. . Em sua fala e com um texto escrito que segurava com uma das mãos ela afirmava que: “o Brasil é formado pela mistura de portugueses, negros e índios”.  Com base nesse conceito, a jovem seguia propondo atividades a Secretaria de Cultura.  Com uma postura de quem estava segura de si, como se nada do que estava propondo fosse pré elaborado pela própria Secretaria Municipal de Cultura, ela apresentou algumas formas de organização de forum para a participação popular na administração cultural da cidade. Não havia dúvida que ali naquele encontro oficial patrocinado pelo italiano comunista Guarniere, dava-se continuidade, agora com o viés marxista, ao conceito cultural dos colonizadores pioneiros portugueses , dos católicos apostólicos romanos e dos marxistas que se dizem no direito de proprietários da identidade nacional brasileira.
              Após as falas desses dois representantes  foi aberta à participação da plateia, momento em que me inscrevi para usar da palavra. Quando me deram o microfone questionei da seguinte forma: “ Sou um ativista cultural desta cidade e fui convidado formalmente a participar deste encontro. Agora estou com um problema existencial e gostaria que a mesa que preside este Fórum me desse ajudasse a resolvê-lo. Eu não sou português, não sou negro e nem sou índio. Também não vim do norte, do nordeste e nem de outro lugar qualquer porque nasci aqui na cidade de São Paulo. Diante disso e do que foi apresentado aqui na abertura dos trabalhos pelo professor da USP,  presidente deste Fórum, e também pela moça que se disse participante de movimento cultural e da Igreja Católica Apostólica Romana de Ermelino Matarazzo, um bairro dormitório da Zona Leste da cidade de São paulo, passei a ficar com um  problema que julgo ser muito sério. Diante do exposto pelos responsáveis por esse encontro  solicito que os membros da mesa tomem uma decisão: Não fui identificado nem na fala do professor e nem da moça e portanto peço que a mesa declare ou que eu não existo ou que este forum não existe. Gostaria que os responsáveis por este evento decidissem sobre isto agora e depois então me retiro”.
                 Algo muito importante ocorreu naquele momento e não foi nenhuma decisão que tenha vindo daquela mesa. Passei a receber apoio de boa parte da plateia dos quais alguns eram afrodescendentes, outros eram nordestinos e entre esses, recebi a solidariedade de Severino do Ramo, um poeta  de origem indígena que participava dos movimentos culturais da cidade de São Paulo.  Logo que a plateia começou a se manifestar ao meu favor, percebi que os microfones e os gravadores  do Fórum começaram a ser desligados.  Numa segunda fala, inquiri também sobre a necessidade de se confirmar a existência dos participantes da mesa diretora já que todos que se agrupavam em volta dela  eram brancos e alguns de sobrenome de origem italiana.  Aquele encontro, bem como o tal forum, sob o ponto de vista da platéia,  acabou naquele mesmo instante!
                       Enfim, passado tantos anos, ainda hoje noto uma grande dificuldade para apresentar as coisas de São Paulo e das pessoas com as minhas características genética e culturais. Também devo reconhecer que  atualmente já posso me identificar  como paulista de origem europeia sem tanto constrangimento, sem despertar rumores de separatismos e outras baboseiras políticas coercitivas. Mas a administração das coisas públicas de São Paulo, a produção intelectual da área da educação, as representações políticas parlamentares do estado e dos municípios, os eventos e datas especificas da História deste Estado Federado ainda são desenhadas de acordo com as falas dos representantes oficiais  daquele Fórum de 1984. Quando trato da Guerra dos Paulistas de 1932, dos Índios desta cidade e do Rio Tietê ( alguns dos pilares  em que se  sustenta a identidade dos paulistanos), sinto que não desperta interesse, mas medo, insegurança e desprezo. Percebe-se, no entanto, que estas reações são frutos da política oficial imposta a São Paulo, cujo território ainda está sob o estigma da ocupação que vem desde de o golpe de Getúlio Vargas em 1930. 
             A constatação dessa realidade política, administrativa e cultural não pode ser confundida com postura sediciosa. Ao contrário, diante da globalização e de seus instrumentos de comunicação trata-se da necessidade que habitantes de toda e qualquer origem, de todo e qualquer lugar,  a exemplo dos  que habitam este território secular denominado São Paulo, de coabitar com as outras realidades em um mesmo estado nacional. Tanto faz se essas realidades  são as da federação brasileira ou de  tantas outras  realidades internacionais. O que não se deve é abdicar de  características regionais, culturais e históricas para atender a este ou aquele desejo ideológico, político e econômico. A constatação da realidade histórica e  atual no campo da  política administrativa aponta que o Governo Central está longe de ser democrático e federativo. O governo central é a extensão do império e os eleitos são imperadores por quatro ou cinco anos com direito a reeleição por mais um período. 
                 Os três poderes dão sustentação a esse regime monárquico tupiniquim, bananeira,  que desde Deodoro da Fonseca se faz confundir com república. Independentemente de guarnieres e de todos esses acontecimentos, sinto que não tarda e libertos seremos também. Até porque a liberdade nunca dependeu de governos brasileiros. A liberdade sob o ponto de vista pragmático, vem de fora para dentro, não depende de oligarquias nacionais dos países subdesenvolvidos e está vinculada à globalização da informação e ao desenvolvimento da comunicação digital. A liberdade de expressão é um fluxo histórico que vem de fora para dentro. (PIGATTI, V, T., 2009)

Valionel Tomaz Pigatti(Léo Tomaz)(PIGATTI, V, T.)

Currículo Lattes:   http://lattes.cnpq.br/0781027245850748

Gianfrancesco Sigfrido Benedetto Martinenghi de Guarnieri nasceu em Milão, filho de músicos antifascistas que decidiram mudar-se para o Rio de Janeiro em 1936, quando ele tinha dois anos.
Em 1955, Guarnieri fixou-se em São Paulo e, com Oduvaldo Viana Filho, fundou o Teatro Paulista do Estudante, que depois se uniu ao Teatro de Arena, que seria um dos centros de resistência cultural e de conscientização popular no início do regime militar implantado em 1964.
Guarnieri escreveu em 1956 sua primeira peça, "Eles Não Usam Black-tie". Montada em 1958, pelo Teatro de Arena, a peça transformou-se num marco da dramaturgia brasileira, ao retratar a luta operária, a divisão de classes e os conflitos sociais referentes ao proletariado. Seguiram-se as peças "Gimba" (1959), "A semente" (1961) e "O Filho do Cão" (1964).

segunda-feira, 20 de abril de 2009

MEU DENTE


           (PIGATTI, V, T., 2009)  
Os Tassi         
                 Algumas lembranças  aparentemente simples de coisas que aconteceram comigo no decorrer da minha existência, acabam servindo para me identificar neste contexto social e histórico ao qual estou inserido. As lembranças e constatações deram-me identidade e os elementos culturais necessários para refletir, me situar historicamente e assim não me confundir com esta ou aquela procedência étnica, com esta ou aquela classe social, com essa ou aquela história. Nesse sentido tento perceber no que ascendi, superei e somei e no que continuo sendo o que sempre fui, preso ao fio da história e aos acontecimentos que me ligam aos que me antecederam e que ligará também os que virão.
                      Talvez seja constatação particularizada, muito individualizada e singular. Talvez não sirva a outro, mas aposto na hipótese de haver  alguém para o qual haverá serventia. Porém, se o universo  que constato existe unicamente a partir de minha existência, e se a partir dela estabeleço relações e reações com as outras existências; então devo ter algum significado, suponho, para as demais existências. Acredito até mesmo que tenha significado a partir do simples ato de existir, mesmo sem nenhuma consciência intelectual desse fenômeno. Basta ver e observar alguém ou um objeto para inseri-lo como um dado a mais e sobre ele realizar um conjunto de reflexões, entre elas as comparativas ou somente as de ordem física resultantes de reações químicas e hormonais.
                     Alguns imigrantes que chegaram com meus avós, os Bevilacqua e os Tassi, no Porto de Santos, em 1889, acharam interessante aqueles homens pintados de negro que trabalhavam no cais. Embora no bairro houvessem poucas famílias de afrodescendentes, com os negros e os brancos vivi toda a minha infância. Com eles eu dividia o banco da Igreja do bairro de nome  Burgo Paulista, aos domingos, na Reunião de Jovens e Menores.  Eu nasci e habitei em rua repleta de imigrantes europeus e achava incrível a imagem dos índios nas cartilhas escolares.  Bastava ver mata ou floresta para soltar a imaginação e me encontrar com os índios, a todo momento, embora nunca os tivesse avistado fora da minha imaginação e dos livros didáticos.

                          Sempre tive a impressão de que  estava em outro lugar e não naquele em que estavam os índios.  Quanto mais  pensava neles mais me sentia estrangeiro. Quando encontrava duas penas juntas de pássaros diferentes ou mesmo de galinhas imaginava, imediatamente, a presença de  índio. No entanto, se das penas eu buscava os índios, também comecei a perceber que  haveria de ter objetos que identificassem os da minha origem, da minha família, do meu gene, da minha genealogia. Pois foi assim que saí procurando,  foi assim que os encontrei e continuo encontrando em boa quantidade. 
                          Um dos primeiros elementos, mais imediatos, que me identificaram  socialmente com os Meus foram os dentes. As dentições dos trabalhadores urbanos europeus imigrantes, suas mulheres e seus filhos, tinham, até pouco tempo (refiro-me até a década de setenta do século XX),  suas bocas  reservadas ao destino das dentaduras. 
                     Entre as penitências que se paga por estar vivo,  a da dor de dente era cobrada ainda cedo, nos primeiros anos de vida. Soma-se a isso mais sofrimento quando se é filho de pai e mãe pobres,  empregados de fábricas,  comércios ou da produção agrícola. Ao nascer os dentinhos o bebê era tomado por um choro de irritação, mesmo porque os nascidos nas famílias de pouco ou nenhum recurso  contavam com as impressões culturais milenares passadas de geração a geração  no cuidado e interpretações dessas manifestações físicas. Obviamente que naquela época  algumas famílias de classe social mais abastada no Brasil contavam com a medicina e os remédios importados.
                   A partir de meus avós e, depois, de meus pais e também do que observei nos outros habitantes da vila, conclui com facilidade que os trabalhadores comuns, em São Paulo da primeira metade do século passado, não davam muito valor aos dentes. Certamente sabiam desde criança do sofrimento físico e financeiro que os dentes lhes causariam ao nascerem  e que continuariam a causar no decorrer de suas vidas. Sabiam também que a cidade em que habitavam era provida de bom número de práticos, quase nenhum dentista e número ainda maior de protéticos. Tanto é verdade que ainda hoje, inicio do século XXI, sindicato  respeitado é   sindicato de trabalhadores que  oferece aos seus filiados na sede da corporação os serviços de dentista e protético.
                         Nas mãos dos práticos ficavam os trinta e dois dentes  e, logo depois, o protético recolocava a mobília bucal que podia ser removida ao bel prazer do usuário. Meu irmão, dez anos mais velho, contou-me que do lado da casa onde eu nasci, ainda na década de cinquenta, num quarto e cozinha onde morava Antonio Massaro, estabeleceu-se um prático com todas aquelas geringonças da idade média, do tempo da inquisição. Ficou ali até esgotar a freguesia. Obviamente  mudou-se depois de ter tirado todos os dentes daquela população de obreiros, donas de casa, crianças, rapazes e velhos. 
                          Era assim que atuavam os práticos. Parecidos até com os garimpeiros, com os circos e parques de diversão. Iam até o final da lavra, explorando até o último, mudando-se para outras freguesias quando nesta sobravam apenas bocas desdentadas.
                    A minha história pessoal e particular com os dentes começou bem cedo. Não é à toa que tratei disso no livro de poesias que publiquei em 1982 intitulado "As Mulheres do Meu Bairro" cuja edição de 2 mil exemplares esgotara-se já nos primeiros dez anos de lançamento da obra, dado ao grande sucesso obtido com a mesma. Nesse livro denuncio a existência de classificação social a partir dos dentes dos indivíduos. Mas isso não vem ao caso, agora.
                      Ainda quando criança, na troca dos dentes de leite para os permanentes, visitei o dentista por muitas vezes por causa de cáries. Meus pais que usavam dentaduras não me entusiasmavam a cuidar de meus próprios dentes,  o que parecia ser atitude inerente à classe social a que pertenciam. Quem mais me atazanou para entregar-me as agruras do dentista foi meu irmão mais velho, advogado, que, ainda hoje, tem mais dentes naturais do que eu. Mas devo confessar que não tive muita sorte com a boca. Alguns amigos e inimigos dizem que, entre outras coisas, falo demais e que há castigo para tudo nesse mundo. Eu não acredito nisso e, portanto, continuo falando e fazendo o que me der na veneta.
                       A minha relação com dentistas teve momentos de muita tensão. Um desses encontros foi precedido por pequena tragédia bucal. Estava eu jogando futebol de salão em uma quadra aberta no colégio Paulo Egydio Martins, na Vila Maria, terra de Jânio Quadros, quando escorreguei no assoalho de cimento da quadra esportiva e bati com a cabeça e com a boca no chão. O barulho oco ressoou pelo espaço e, como resposta, ouviu-se óóóóó da platéia na qual estava boa parte das garotas para as quais vivíamos fazendo pose. É certo que eu havia marcado o único gol da partida, mas o tombo me colocou muito próximo ao fracasso. Digo isto porque sempre considerei um fracasso morrer atropelado ou em acidente de carro. Acredito que na competição natural entre indivíduos, aqueles que morrem atropelados saem dela pela porta dos fundos. Foi assim que me senti, com a boca estragada, a caminho do hospital.
                         Lembro-me que levantei-me do chão de cimento  sem reclamar ou expressar dor. Apenas queria sair dali, ir cuidar-me. Notei que dois de meus dentes haviam se partido. Um rachou da raiz para baixo, o outro pela metade. Os dois dentes superiores da frente. Antes fui conduzido a um pronto socorro visto que abrira um talho no queixo e diante do qual o enfermeiro que era gay, sem nenhuma hesitação, raspou-me a barba de jovem relapso com barbeador de gilete velha e cega de tanto já ter sido usada.  Tudo bem para quem sofreu o que sofri. Um dorzinha a mais já não faria diferença. Aceitei tudo passivamente.
                        O dente que havia rachado na diagonal, a partir da raiz, trazia consigo uma história inesquecível. Antes da tragédia do Paulo Egydio, haviam, aproximadamente, dois anos passados, fui convocado pelo exercito brasileiro e incorporado ao 2º Batalhão de Guardas, em janeiro de 1971. Essa unidade do exercito federal ficava alojada num prédio do Parque D. Pedro II, ao lado do Rio Tamanduateí. Prédio de construção antiga que servira ao Império, sendo, no começo do século passado, transformado no primeiro hospício e cadeia pública da Cidade de São Paulo. Na década de trinta meu tio Luís Tassi estivera preso ali, quando o prédio deixou de ser hospício e passou a ser somente prisão que ficara conhecida popularmente como a "Bastilha", numa alusão a prisão francesa do mesmo nome. Muitos estiveram presos ali, mas o apelido de Bastilha era resultado do espírito paulistano da Guerra de 1932 que invocava semelhança do que ocorrera em São Paulo com os fatos semelhantes ocorridos anteriormente na Europa.
                          Naquele velho prédio do Parque D. Pedro estava eu, soldado Pigatti, 739, a bater continência para os operários da intervenção militar que em 1964 derrubou o pessoal que sobrou de Getúlio Vargas alojados nos serviços público do Governo Federal.  No que anteriormente  fora  hospício, instalou-se uma cadeia pública,  depois um quartel do exército nacional, mais tarde um depósito da polícia militar de São Paulo,  e, hoje, é um prédio abandonado. Quando soldado do exército e nas dependências do então vistoso prédio público,  ganhei,  em maio de 1971, em numa noite fria, depois de tomar um banho gelado e dormir em beliche voltado para um dos janelões do dormitório, um quisto  no dente que haveria de rachar mais tarde na quadra de cimento do Colégio Paulo Egydio. Acordei com barulho do clarim soprado pelo corneteiro do dia e com uma sensação de que eu existia apenas da parte da cabeça que vai do nariz até o queixo. Estava com a boca inchada, uma bolsa de pus na gengiva e uma dor terrível. Fui até o sargento do dia e mostrei-lhe a situação. O sargento pé de poeira mandou que primeiro eu entrasse em forma militar e logo depois  de responder a chamada matinal seguisse em direção ao médico.
                      Com a dispensa procurei um dentista por conta própria para não perder o dente no alicate de um militar cujas histórias, naquele tempo de regime militar, se aproximavam e muito com as das torturas da Idade Média. Tratei de tomar antibióticos e depois fazer o canal do dente. Tudo bem, meu dente estava ali ainda que sem os nervos. Tudo ia bem até que, dois anos depois, em meio a crise  que se dizia existencial dos 21 anos de idade, escorreguei naquela quadra e acabei rachando dois dentes frontais, sendo que o do quisto curado havia  rachado em diagonal, ficando apenas a raiz em minha gengiva.
                     Tratado os ferimento, procurei um dentista indicado por minha irmã, Waldete, que meu avô italiano  Giacomo  chamava de Valeta. Minha irmã residia com sua família na Vila Maria e era na casa dela que eu pernoitava e tirava proveitos da condição de cunhado. Através de um processo da odontologia moderna ele, o referido dentista, refez meus dois dentes frontais. Voltei a sorrir, mas me mudei do Colégio Paulo Egydio procurando uma outra escola para completar o curso colegial. Com esses dentes frontais recuperados na Vila Maria me casei, me separei e casei de novo. E ainda com eles fui para a Universidade me graduar em Comunicação Social.                    
            Com a raiz do dente do quisto curado, que mais tarde  se partira  em diagonal,  que ainda  haveria de ser  recondicionado pelo dentista da Vila Maria, participei de reuniões clandestinas na Rua Santa Rosa, para organização da Frente Democrática Brasileira no inicio de 1977. 
              Ainda nesse período organizei os diretórios acadêmicos de estudantes da Universidade de Mogi das Cruzes e em 1978 fui para o Congresso de Reorganização da UNE em Salvador, Bahia. Ainda com esses dentes trabalhei para a Tendência Popular do MDB em um gabinete de vereador da Câmara Municipal de São Paulo em 1979, lancei livro de poesias em 1982, participei das Diretas Já(z), da organização do Movimento Popular de Arte de São Miguel Paulista, montei duas peças de teatro com mais de cem apresentações, participei do grupo musical A Tribo, morei numa cobertura de um amigo na rua Cotoxó, mudei para a Alameda Tietê, vivi na rua dos Estudantes, depois na rua Apiaí, inventei um tal de Movimento Cultural da Reversão, fugi para Bertioga, passei quatro meses trabalhando na pesca, voltei para a Vila Rei e realizei a Casa de Cultura Reversão. 
                      Por todo esse período circulei sem ter ido uma única vez no dentista. De tudo que fiz até 1986, não ir ao dentista foi o ato mais revolucionário e contestatório que realizei nesse tempo todo de agitação. Mas como todo ato de rebeldia tem seu preço, no final de 1986 eu estava com a dentição em frangalhos por obra do descaso e, muito mais, do desemprego que me assolou a partir de 1982, quando resolvi deixar o gabinete da Câmara Municipal desconfiado e sem entender muito bem o que os caciques das organizações abrigadas no MDB, depois PMDB, estavam impingindo ao destino político brasileiro. Outros também perceberam isso e fundaram outros partidos e eu não me filiei a nenhum deles. Ainda com os dentes em frangalhos me aproximei dos Humanistas, mas dei de cara com os argentinos do Partido Comunista e então me retirei.
                       Sem dinheiro, sem partido, sem espaço, sem emprego eu não pude mais resistir e tive que ir ao dentista. Conseguira na família o dinheiro suficiente para me submeter a intervenção bucal de peso. Depois de todos os exames e preparações sentei-me novamente na cadeira do dentista e, dessa vez,  de um conceituado  ´profissional de nome Doutor Dayer, personagem muito especial, cujo consultório ficava na Alameda Santos, paralela à  Avenida Paulista, próximo ao Trianon. Ali, naquela cadeira de dentista de alta classe, fiquei imóvel por nove horas consecutivas. Tudo havia sido preparado anteriormente para a conclusão do trabalho em nove horas de uma única sessão. Naquela noite de terça feira, depois de nove horas de boca aberta,  levantei-me da cadeira do dentista na Alameda santos, peguei um ônibus na Brigadeiro Luis Antonio em direção à Praça da Sé e lá me enfiei no Metrô. Nesse percurso muitas coisas aconteceram como o fato de eu andar feito louco de um lado para o outro, por entre as pessoas,  no vagão do metrô. Parecia que só havia minha cabeça, parecia que me haviam arrancado a cabeça e eu a segurava com as mãos tentando mantê-la acima do pescoço. A sensação era  de que eu não chegaria mais em casa. A cada estação o percurso parecia interminável até que desci na Patriarca, andei pela Avenida  Itinguçu, virei na Hermilo Alves e desmaiei na porta da Casa de Cultura Reversão.
               Chegando na Reversão os amigos de movimento, entre eles o Nelson Mouriz que eu havia socorrido em 1978 quando o mesmo havia levado uma pedrada no punho, pedra que fora atirada gratuitamente no trem  dos estudantes por um anônimo que devia estar em um dos barrancos à margem da linha.  Nelson, retribuindo  a minha gentileza anterior, levou-me para dentro da casa e me deu o remédio indicado pelo dentista e que eu trazia em um pacotinho. Junto com outros moradores da casa, deram-me também uma sopinha de pão com leite quente e então desapareci nos braços de Morfeu durante doze horas. Mas acordei no outro dia sorrindo com todos os dentes que o dentista havia conseguido me enfiar na boca.
                  Lá estava meu dente frontal que havia recebido um quisto, depois rachado em diagonal, depois refeito e recuperado, agora uma raiz firme prendendo com um pino de aço uma prótese quase perfeita com a qual eu podia cantar, falar, beijar e sorrir sem nenhum constrangimento.
              A Casa de Cultura Reversão explodiu em música, teatro, literatura, cinema, produção de ideias, conceitos de organização, avaliação crítica, confrontos de idéias, participações em organizações políticas, visitas ilustres, rádio, TV,  repressão, processos, movimento ambientalista, sorrisos e ais. E meu dente firme, com carenagem nova, com tantas histórias em si. Quantas mãos tocaram-no, esculpiram-no na tentativa de arrancá-lo ou deixa-lo ali? Quantos não arrecadaram dele o dinheiro para o sustento disto ou daquilo?
                 Na vila de Jânio Quadros onde, em um dos seus muitos discursos, na praça Eduardo Cothing, na qual o bonde  contornava para voltar ao Largo da Concórdia, eu estivera em 1979 com velho José Maria Crispim, deputado constituinte em 45, líder do PC do BR , já falecido em todos s sentidos. Ali, novamente na Vila Maria eu haveria de pregar o golpe fatal em meu dente.
                 Pouco antes do natal d do ano 2000, fui com minha filha e a filha da minha companheira, visitar  minha irmã que reside na Rua Eli, na Vila Maria, com quem eu habitei em tempos de colegial e de serviço obrigatório no exército brasileiro. Ali sob o belíssimo sol de dezembro, entre mergulhos e brincadeiras na piscina, com o espírito das férias de fim de ano, ao  fazer  as acrobacias favoritas das crianças, um pouco fora de forma, bati com a boca na cabeça de uma delas. Ainda debaixo da água pude sentir que alguma coisa havia se modificado em minha arcada dentária. Ao sair pela flor da água e respirar levei a mão ao meu dente frontal e notei que acabara de romper a prótese que acompanhara meus sorrisos nesses últimos 14 anos.
               Nada falei, de nada reclamei, apenas um ciclone de recordações passaram pela minha cabeça. Senti-me só, solitário e único. Pensei no quisto que ganhara meu dente em 1971 e no que acabara de perder naquele momento,  final do ano 2000. Ao passar a língua no local da gengiva onde houvera o pino de metal que ligava à raiz o que sobrara daquele meu dente frontal, senti que mais nada havia  ali.
            Não demorou para que sentasse novamente na cadeira de dentista. Desta vez escolhi a mão feminina e me submeti às mãos profissional da mulher. O perfume, a voz, a delicadeza, o cuidado, a proteção maternal, o jeito, o toque enfim tudo me levou a optar pela dentista. Apenas o orgulho e a auto estima pesaram-me um pouco, pois teria que mostrar-me de certa forma avariado para uma mulher. Enfim decidi que seria melhor nas mãos dela ainda que de autoestima um pouco abalada.  Ao final, ela, a mulher dentista, foi que resgatou minha estima na medida em que reconstruiu o meu sorriso. Ali, sentado, boquiaberto,  entreguei-me passivamente esperando  pelo diagnóstico, mas sempre preocupado com o dente frontal. Na cadeira, segurando o sorvedouro de saliva que ressecava a garganta, fiquei imaginando os antropólogos analisando os restos  de animal antigo, a arcada dentária. Por ela pode-se contar parte da história ou toda a história. Pode-se definir classes e situações.
                   Ontem voltei à dentista. Confesso que relutei, quase desisti. Aplicou-me anestesia, e com o alicate pontudo vasculhou minha gengiva, foi lá, lá no fundo, puxou com toda força e arrancou a raiz que sobrara do dente que resistiu a quisto e pancadas nestes últimos trinta anos de minha vida. Não quis vê-lo na ponta do alicate. Senti tristeza, fiquei deprimido, dormi bem mais cedo para esquecer-me do que acabara de perder, do que não veria e nem sentiria  mais...    (PIGATTI, V, T., 2009)

Valionel Tomaz Pigatti (Léo Tomaz)- 

Currículo Lattes:   http://lattes.cnpq.br/0781027245850748