PEREGRINO, FORASTEIRO
Sai cedo de minha residência na capital paulista e segui em direção a uma cidadezinha do interior do Estado. Circuito das águas, uma casa em um condomínio em meio a mata onde se tem a tranquilidade e a segurança de estar de portas destrancadas. Uma boa casa rodeada de jardins, de bom espírito, cercada de flores, construída em lugar alto de onde se vê toda a paisagem que está a leste, de colinas e montanhas cujo horizonte não tem fim. Do andar superior, na sala onde disponho de uma mesa, volto meus olhos para a paisagem onde o relevo é coberto por um verde que se diferencia quando é plantação, quando é capim, quando é mata natural. Na colina coberta de capim onde o verde é mais claro vejo uma rua de terra em marrom claro cortando do sopé ao cume e bem no meio da via sobem dois troncos de uma paineira que parece saírem de um mesmo bloco de raiz, ambos com suas copas carregadas de flores avermelhadas.
Entre eu e as paineiras estão os telhados de terracota das casas silenciosas do condomínio. Um vento conversa em assovios comigo ao passar pelas frestas dos vidros das janelas da cozinha e da porta da sala do ambiente conjugado. Uma parte ousada do vento faz as cortinas bailarem suavemente, cantando e dançando, provocando-me e zombando do silencio da imagem de fora que observo através dos vidros temperados da porta que toma quase toda a parede e que me protege do vento. Como já acontecera antes, agora estou em um lugar novo, que ainda não conhecia, que ainda não havia estado. Uma casa e um lugar, uma nova paisagem, um novo olhar, mas a sensação é que continuo o mesmo, que em mim nada muda e que apenas sigo da mesma forma, do mesmo barro, juntando coisas desde há muito tempo enquanto a paisagem externa sofre variações.
Chego a pensar e sentir que não estive preparado para aprender, para aprimorar, para mudar, para vencer, para me consagrar em algo, assim como em uma profissão ou em qualquer coisa a que me dispus fazer, propor, consertar, construir, liderar, obedecer. Não realizei nenhuma colheita, não vendi o que construí, não transformei nada em benefício, não soube cobrar por um serviço, não soube comensurar as minhas ações, não tive qualquer noção de importância, se fiz foi pelo fato de fazer, de sentir que deveria, de querer, nada mais que isso, sem nenhum valor financeiro, sem nenhuma avaliação de importância. Não soube lidar com o caráter do outro, com os erros, com as derrotas. Não soube tirar de cada coisa um aprendizado, não soube aquietar-me para depois retomar e vencer, e concluir, e me consagrar. Ainda moço fiz concurso público e passei, mas resolvi não assumir por não querer saber, já naquele tempo, o que seria hoje, no fim.
Escrevi durante toda a minha vida como ainda escrevo agora. Dei-me o luxo de escrever poesias, de compor e cantarolar, de empreitar, de assessorar, de trabalhar, de me empregar, de ser patrão e nunca fui até o fim em nenhuma situação. Parece que vim à vida para experimentar, para conhecer, para saborear somente o que estava ao meu alcance, somente o meio e o começo, mas não o fim.
Percebo que não entendi a realidade, a sociedade, o que os homens são de fato, o que se quer de alguém para se dar bem. Parece que não percebi ou não herdei a capacidade de entender os limites da honestidade, os limites do caráter, os limites da decência, os limites das relações humanas. Para mim tudo sempre foi estanque, nada foi elástico. Se fiz algo foi pelo fato de acreditar que tinha também o direito de fazer, de experimentar. Fiz pelo direito de fazer e depois de feito, ainda que muitos outros tenham se beneficiado daquilo, não prossegui, não exigi, apenas sai de cena como se a minha compreensão se finalizasse em mim mesmo, no fato de ter feito, no ato de realizar o feito.
Não entendi a questão econômica, não percebi. Por herança familiar, pelo meio social e político ou pela minha própria incapacidade não soube lidar com a economia, com o patrimônio, com a construção, com a posse, com a acumulação, com o bem estar material e físico, com o direito de ter bens, de conquistar, de competir.
Agora me ponho a pensar, a refletir, a repassar as coisas todas, o que deixei, o que não conclui, o que não terminei, o que não consegui, o que não completei. Agora, no ano de 2012, aos sessenta anos de idade, ponho-me a escrever como se fosse uma sina, como se para comigo mesmo fosse um dever. Escrevo pelo ato de escrever, de conseguir me entender, me decifrar, me estabelecer e o que está à minha volta, à minha lembrança, ao meu olhar, ao que será. Uma longa jornada que nem sei onde começou, mas que vai assim até que chegue o dia de não escrever mais, de passar, de apagar, como se nunca estivesse aqui; o fim. (PIGATTI, V, T., 2012)
Valionel (Léo Tomaz). 2012.