AS FESTIVIDADES DOS 500 ANOS DE COLONIZAÇÃO PORTUGUESA DO BRASIL.
Em 22 de abril de 2000 ocorreram as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil. A data foi marcada por uma profunda divisão entre as festividades promovidas pelo governo FHC e seus aliados espalhados pelas 26 colônias, recebendo protestos de grande parte de movimentos sociais. O evento, planejado para ser uma grande exaltação nacional da esquerda e da direita na região de Porto Seguro, na Bahia, acabou expondo os contrastes sociais, históricos, políticos, culturais e estéticos da federação conduzida pela tradicional ditadura colonialista hoje estabelecida em Brasília.
Paralelamente
a essa festa oficial, grupos sociais se reuniram para lançar o “Movimento Brasil:
Outros 500”. Organizações de caráter político-social como a dos povos
indígenas, das comunidades quilombolas, do Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra (MST) e sindicatos organizaram uma comemoração contrária recheada de
protestos. Na Bahia o governo instou a Polícia Militar a reprimir
violentamente a Marcha dos Povos Indígenas e movimentos sociais que se
deslocavam pela rodovia de acesso a Porto Seguro, deixando muitos feridos e
mais de 140 detidos. Enquanto o governo FHC celebrava o
"descobrimento", os manifestantes denunciavam 500 anos de massacres,
perseguições e a exclusão histórica de indígenas e negros. O movimento exigia a
demarcação imediata de terras indígenas e o cumprimento dos direitos
constitucionais de saúde e educação.
Como sempre, o rosto da ditadura estética no evento se apresentou
como um legado cultural e se impôs nos estados federados através da mídia
monopolista. Os cofres públicos de Brasília, mobilizaram financeiramente
uma produção cultural de cartas marcadas reunindo artistas que representavam
esteticamente as comemorações. Como sempre, a Rede Globo foi financiada para
transmitir shows especiais com a participação de seus artistas.
As críticas a essas comemorações
destacaram o fato de elas estarem restritas às oligarquias luso-brasileiras. O
evento se concentrou em estabelecer o Brasil de Brasília como propriedade
cultural e estética lusitana e católica. Como resultado, houve uma explosão de
protestos que, em sua maioria, não foram objeto de reportagens das mídias do
Brasil, mas podiam ser constatados nas mídias internacionais do primeiro
mundo.
Tratar o Brasil como propriedade
material, imaterial e intelectual dessas oligarquias é aprisionar o processo de
recolonização histórica aos idos de 1500 e ficar parado por lá, como se nada
houvesse acontecido no decorrer dos últimos 500 anos. Admitir de quem quer que
seja, em nome de qualquer tipo de proposta política, econômica, intelectual ou
administrativa, que o Brasil, como território econômico, cultural, estético e
administrativo, é e continuará sendo exatamente o que as oligarquias propuseram
na festa de seus 500 anos, é inaceitável.
Querer que os indivíduos que não
sejam de origem portuguesa e que saíram de seus territórios originais para se
fixarem nas terras compreendidas dentro das fronteiras geográficas dos estados
federados a Brasília, assumam essas oligarquias como gênesis, modelo ou matriz
é inconcebível. Admitir essas oligarquias como proprietárias intelectuais,
étnicas, estéticas e culturais de todos os cidadãos, do que pensam, querem e
produzem nos seus respectivos estados federados a Brasília é se submeter à
escravidão do atraso e não almejar um futuro melhor. Admitir que cidadãos que
não se coadunam com as limitações, vícios e costumes desse status quo se vejam
obrigados ao silêncio, ainda que subjetivamente, ou a se deslocarem para outros
países é admitir a continuidade de uma mentalidade que quer se impor pelo
despotismo e pela violência.
Há de se lembrar que milhões de
portugueses também se viram obrigados a emigrar de Portugal pelas condições que
a mesma oligarquia impôs ao seu próprio povo. Que se leia Jorge de
Sena, Alves do Redol e tantos outros para se ter noção disto. Há de
se lembrar ainda que esses milhões de portugueses sequer imaginavam que se
transfeririam para o Brasil e, consequentemente, para a extensão do que existia
e ainda existe em Portugal. Esses milhões são agora “nós outros”; nem
portugueses, nem índios, nem africanos, nem oligarquia. Mas também
são como “nos outros” todos os que vieram de outras terras da Europa, Ásia,
África e que não aceitam a identidade imposta pela oligarquia tradicional, seus
intelectuais e historiadores.
Há de convir que, de uma forma ou de
outra, os povos de todas as origens que se deslocaram ou foram trazidos, na
maioria, o fizeram por obra das oligarquias de suas próprias terras. Não devem
ser estas oligarquias, portanto, substituídas por essa oligarquia tradicional
brasileira. Esses povos devem existir na nacionalidade brasileira dando a ela
sua própria contribuição cultural e intelectual, gerando
transformações na própria oligarquia tradicional luso-católica-brasileira
homenageada na festa dos 500 anos.
Essa é uma forma de distribuir poder e gerar um equilíbrio de forças que não permita a preponderância desta ou daquela sobre as demais. Esses povos devem ter suas raízes respeitadas na configuração da nacionalidade brasileira. Cada espaço geográfico ocupado por esses povos deve lhes propiciar a expressão de sua própria identidade ou da identidade resultante de sua presença na cultura, na administração, na intelectualidade e na estética dos seus movimentos sociais. (PIGATTI, V, T., 2026)
Valionel Tomaz Pigatti (Léo Tomaz).