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domingo, 19 de julho de 2026

     

AS FESTIVIDADES DOS 500 ANOS DE COLONIZAÇÃO PORTUGUESA DO BRASIL.   

     Em 22 de abril de 2000 ocorreram as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil. A data foi marcada por uma profunda divisão entre as festividades promovidas pelo governo FHC e seus aliados espalhados pelas 26 colônias, recebendo protestos de grande parte de movimentos sociais. O evento, planejado para ser uma grande exaltação nacional da esquerda e da direita na região de Porto Seguro, na Bahia, acabou expondo os contrastes sociais, históricos, políticos, culturais e estéticos da federação conduzida pela tradicional ditadura colonialista hoje estabelecida em Brasília.

Paralelamente a essa festa oficial, grupos sociais se reuniram para lançar o “Movimento Brasil: Outros 500”. Organizações de caráter político-social como a dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e sindicatos organizaram uma comemoração contrária recheada de protestos.  Na Bahia o governo instou a Polícia Militar a reprimir violentamente a Marcha dos Povos Indígenas e movimentos sociais que se deslocavam pela rodovia de acesso a Porto Seguro, deixando muitos feridos e mais de 140 detidos. Enquanto o governo FHC celebrava o "descobrimento", os manifestantes denunciavam 500 anos de massacres, perseguições e a exclusão histórica de indígenas e negros. O movimento exigia a demarcação imediata de terras indígenas e o cumprimento dos direitos constitucionais de saúde e educação.

        Como sempre, o rosto da ditadura estética no evento se apresentou como um legado cultural e se impôs nos estados federados através da mídia monopolista. Os cofres públicos de Brasília, mobilizaram financeiramente uma produção cultural de cartas marcadas reunindo artistas que representavam esteticamente as comemorações. Como sempre, a Rede Globo foi financiada para transmitir shows especiais com a participação de seus artistas.

            As críticas a essas comemorações destacaram o fato de elas estarem restritas às oligarquias luso-brasileiras. O evento se concentrou em estabelecer o Brasil de Brasília como propriedade cultural e estética lusitana e católica. Como resultado, houve uma explosão de protestos que, em sua maioria, não foram objeto de reportagens das mídias do Brasil, mas podiam ser constatados nas mídias internacionais do primeiro mundo.         

            Tratar o Brasil como propriedade material, imaterial e intelectual dessas oligarquias é aprisionar o processo de recolonização histórica aos idos de 1500 e ficar parado por lá, como se nada houvesse acontecido no decorrer dos últimos 500 anos. Admitir de quem quer que seja, em nome de qualquer tipo de proposta política, econômica, intelectual ou administrativa, que o Brasil, como território econômico, cultural, estético e administrativo, é e continuará sendo exatamente o que as oligarquias propuseram na festa de seus 500 anos, é inaceitável.

            Querer que os indivíduos que não sejam de origem portuguesa e que saíram de seus territórios originais para se fixarem nas terras compreendidas dentro das fronteiras geográficas dos estados federados a Brasília, assumam essas oligarquias como gênesis, modelo ou matriz é inconcebível. Admitir essas oligarquias como proprietárias intelectuais, étnicas, estéticas e culturais de todos os cidadãos, do que pensam, querem e produzem nos seus respectivos estados federados a Brasília é se submeter à escravidão do atraso e não almejar um futuro melhor. Admitir que cidadãos que não se coadunam com as limitações, vícios e costumes desse status quo se vejam obrigados ao silêncio, ainda que subjetivamente, ou a se deslocarem para outros países é admitir a continuidade de uma mentalidade que quer se impor pelo despotismo e pela violência.

            Há de se lembrar que milhões de portugueses também se viram obrigados a emigrar de Portugal pelas condições que a mesma oligarquia impôs ao seu próprio povo.  Que se leia Jorge de Sena, Alves do Redol e tantos outros para se ter noção disto.  Há de se lembrar ainda que esses milhões de portugueses sequer imaginavam que se transfeririam para o Brasil e, consequentemente, para a extensão do que existia e ainda existe em Portugal. Esses milhões são agora “nós outros”; nem portugueses, nem índios, nem africanos, nem oligarquia.  Mas também são como “nos outros” todos os que vieram de outras terras da Europa, Ásia, África e que não aceitam a identidade imposta pela oligarquia tradicional, seus intelectuais e historiadores. 

            Há de convir que, de uma forma ou de outra, os povos de todas as origens que se deslocaram ou foram trazidos, na maioria, o fizeram por obra das oligarquias de suas próprias terras. Não devem ser estas oligarquias, portanto, substituídas por essa oligarquia tradicional brasileira. Esses povos devem existir na nacionalidade brasileira dando a ela sua própria contribuição cultural e intelectual, gerando transformações na própria oligarquia tradicional luso-católica-brasileira homenageada na festa dos 500 anos.

            Essa é uma forma de distribuir poder e gerar um equilíbrio de forças que não permita a preponderância desta ou daquela sobre as demais. Esses povos devem ter suas raízes respeitadas na configuração da nacionalidade brasileira. Cada espaço geográfico ocupado por esses povos deve lhes propiciar a expressão de sua própria identidade ou da identidade resultante de sua presença na cultura, na administração, na intelectualidade e na estética dos seus movimentos sociais. (PIGATTI, V, T., 2026)

                                                                                                    Valionel Tomaz Pigatti (Léo Tomaz).

                                                                      Currículo Lattes:  http://lattes.cnpq.br/0781027245850748

quinta-feira, 18 de junho de 2026

 

PEREGRINO, FORASTEIRO

     Sai cedo de minha residência na capital  paulista e segui em direção a uma cidadezinha do interior do Estado. Circuito das águas, uma casa em um condomínio em meio a mata onde se tem a tranquilidade e a segurança de estar de portas destrancadas. Uma boa casa rodeada de jardins, de bom espírito, cercada de flores, construída em lugar alto de onde se vê toda a paisagem que está a leste, de colinas e montanhas cujo horizonte não tem fim. Do andar superior, na sala onde disponho de uma mesa, volto meus olhos para a paisagem onde o relevo é coberto por um verde que se diferencia quando é plantação, quando é capim, quando é mata natural. Na colina coberta de capim onde o verde é mais claro vejo uma rua de terra em marrom claro cortando do sopé ao cume e bem no meio da via sobem dois troncos de uma paineira que parece saírem de um mesmo bloco de raiz, ambos com suas copas carregadas de flores avermelhadas.

    Entre eu e as paineiras estão os telhados de terracota das casas silenciosas do condomínio. Um vento conversa em assovios comigo ao passar pelas frestas dos vidros das janelas da cozinha e da porta da sala do ambiente conjugado. Uma parte ousada do vento faz as cortinas bailarem suavemente, cantando e dançando, provocando-me e zombando do silencio da imagem de fora que observo através dos vidros temperados da porta que toma quase toda a parede e que me protege do vento. Como já acontecera antes, agora estou em um lugar novo, que ainda não conhecia, que ainda não havia estado. Uma casa e um lugar, uma nova paisagem, um novo olhar, mas a sensação é que continuo o mesmo, que em mim nada muda e que apenas sigo da mesma forma, do mesmo barro, juntando coisas desde há muito tempo enquanto a paisagem externa sofre variações.

Chego a pensar e sentir que não estive preparado para aprender, para aprimorar, para mudar, para vencer, para me consagrar em algo, assim como em uma profissão ou em qualquer coisa a que me dispus fazer, propor, consertar, construir, liderar, obedecer. Não realizei nenhuma colheita, não vendi o que construí, não transformei nada em benefício, não soube cobrar por um serviço, não soube comensurar as minhas ações, não tive qualquer noção de importância, se fiz foi pelo fato de fazer, de sentir que deveria, de querer, nada mais que isso, sem nenhum valor financeiro, sem nenhuma avaliação de importância. Não soube lidar com o caráter do outro, com os erros, com as derrotas. Não soube tirar de cada coisa um aprendizado, não soube aquietar-me para depois retomar e vencer, e concluir, e me consagrar. Ainda moço fiz concurso público e passei, mas resolvi não assumir por não querer saber, já naquele tempo, o que seria hoje, no fim. 

Escrevi durante toda a minha vida como ainda escrevo agora. Dei-me o luxo de escrever poesias, de compor e cantarolar, de empreitar, de assessorar, de trabalhar, de me empregar, de ser patrão e nunca fui até o fim em nenhuma situação. Parece que vim à vida para experimentar, para conhecer, para saborear somente o que estava ao meu alcance, somente o meio e o começo, mas não o fim. 

Percebo que não entendi a realidade, a sociedade, o que os homens são de fato, o que se quer de alguém para se dar bem. Parece que não percebi ou não herdei a capacidade de entender os limites da honestidade, os limites do caráter, os limites da decência, os limites das relações humanas. Para mim tudo sempre foi estanque, nada foi elástico. Se fiz algo foi pelo fato de acreditar que tinha também o direito de fazer, de experimentar. Fiz pelo direito de fazer e depois de feito, ainda que muitos outros tenham se beneficiado daquilo, não prossegui, não exigi, apenas sai de cena como se a minha compreensão se finalizasse em mim mesmo, no fato de ter feito, no ato de realizar o feito. 

 Não entendi a questão econômica, não percebi. Por herança familiar, pelo meio social e político ou pela minha própria incapacidade não soube lidar com a economia, com o patrimônio, com a construção, com a posse, com a acumulação, com o bem estar material e físico, com o direito de ter bens, de conquistar, de competir.

Agora me ponho a pensar, a refletir, a repassar as coisas todas, o que deixei, o que não conclui, o que não terminei, o que não consegui, o que não completei. Agora, no ano de 2012, aos sessenta anos de idade, ponho-me a escrever como se fosse uma sina, como se para comigo mesmo fosse um dever. Escrevo pelo ato de escrever, de conseguir me entender, me decifrar, me estabelecer e o que está à minha volta, à minha lembrança, ao meu olhar, ao que será. Uma longa jornada que nem sei onde começou, mas que vai assim até que chegue o dia de não escrever mais, de passar, de apagar, como se nunca estivesse aqui; o fim. (PIGATTI, V, T., 2012)

                                                                                       Valionel (Léo Tomaz). 2012. 

                                                                         Valionel Tomaz Pigatti (Léo Tomaz)
                                                                      Currículo Lattes:  http://lattes.cnpq.br/0781027245850748