AS FESTIVIDADES DOS 500 ANOS DE COLONIZAÇÃO PORTUGUESA DO BRASIL.
As críticas aos festejos das comemorações das oligarquias luso-brasileiras em relação aos 500 anos da demarcação do Brasil como território de exploração lusitana e católica, culminaram com uma série de protestos, os quais, em sua maioria, não foram objeto de reportagens no Brasil, mas podiam ser vistos nas mídias internacionais do primeiro mundo.
Tratar o Brasil como algo unidimensional e propriedade material, imaterial e
intelectual dessas oligarquias originais é ignorar o processo de recolonização e estacionar nos anos de 1500, ficar parado por lá, como se nada houvesse acontecido no
decorrer da história. Admitir de quem quer que seja, em nome de qualquer tipo
de proposta política, econômica, intelectual ou administrativa, que o Brasil,
como território econômico, cultural e administrativo, é e continuará sendo exatamente o que
vêm propondo essas oligarquias na festa de seus 500 anos, é inaceitável.
Querer
que os indivíduos que não sejam de origem portuguesa e que saíram de seus territórios originais para se
fixarem nas terras situadas dentro das fronteiras cartográficas do Estado
brasileiro, assumam essas oligarquias como gênesis ou matriz e, portanto,
proprietárias intelectuais, étnicas, estéticas e culturais de todos os
cidadãos, do que pensam, querem e produzem no
Brasil é se submeter à escravidão do atraso e não almejar um
futuro melhor.
Admitir
que cidadãos que não se coadunam com as limitações, vícios e costumes desse
status quo se vejam obrigados ao silêncio, ainda que subjetivamente, ou a se
deslocarem para outros países é admitir a continuidade de uma mentalidade que
se diz genitora e que se impõe no despotismo e na violência.
Há
de se lembrar que milhões de portugueses se viram obrigados a emigrar de
Portugal no século XX pelas condições que essa mesma oligarquia impôs ao seu próprio povo. Que se leia Jorge de Sena, Alves do Redol e
tantos outros para se ter noção disto.
Há de se lembrar ainda que esses milhões de portugueses sequer imaginavam
que se transfeririam para o Brasil e, consequentemente, para a extensão do que
existia de pior e ainda persiste em Portugal.
Esses
milhões de portugueses são agora “nós outros”; nem portugueses, nem índios, nem africanos, nem
oligarquia. São como todos os que vieram de outras terras da Europa, Ásia, África e que não aceitam
a identidade imposta pela oligarquia tradicional, seus intelectuais e
historiadores. Há de convir que, de
uma forma ou de outra, os povos de todas as origens que se deslocaram ou foram
trazidos, na maioria, o fizeram por obra das oligarquias de suas próprias
terras.
Esses povos não portugueses, não católicos, devem existir na nacionalidade brasileira dando a ela sua própria contribuição cultural, estética e intelectual, assim como também para a renovação qualitativa da própria oligarquia. Essa é uma forma de distribuir poder e gerar um equilíbrio de forças que não permita a preponderância desta ou daquela sobre as demais.
Esses povos de todas as partes do planeta devem ter suas raízes respeitadas na configuração da nacionalidade brasileira. Cada espaço geográfico ocupado por esses povos deve lhes propiciar a expressão de sua própria identidade ou da identidade resultante de sua presença na cultura, na administração, na intelectualidade e nos movimentos sociais.
Se a “nós outros” não servem às festividades da oligarquia e seus 500 anos, de quem podemos nos servir como referencial na construção de algo novo que costure todas as relações entre os povos de diversas origens? Como podemos encontrar em uma única etnia o modelo de respeito, qualidade de vida,
equilíbrio com a natureza e relações humanas? Certamente, os povos que melhor apresentam essas qualidades são os nativos da terra;
os índios. Mesmo porque esses
são, naturalmente, os maiores exemplos e, ao mesmo tempo, as primeiras vítimas da miséria imposta ao país pela oligarquia tradicional brasileira quinhentista.
Ainda
que “nós outros” não possamos ou devamos abdicar de nossas origens e identidade, utilizando-as como forma de romper e se proteger dos desejos de poder absoluto deste ou daquele, tendo a herança cultural como referencial
de nossa liberdade e insubmissão, é nos índios, na defesa deles, na preservação de seus conhecimentos, na
preservação de suas identidades, de suas culturas que
poderemos encontrar um referencial comum que faça a costura entre todos os agora "americanos" das mais diversas origens, que tenham vindos de qualquer lugar do planeta para a América.
Valionel Tomaz Pigatti (Léo Tomaz).
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